Cianorte: Apenas 0,95% do Orçamento 2025 Podem Reduzir Drasticamente Fila de 30 Mil Pacientes em 10 Meses

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CIANORTE – A existência de uma fila superior a 30 mil registros para consultas, exames e procedimentos especializados na saúde pública de Cianorte reacende um debate inevitável: o problema é exclusivamente falta de recursos ou também envolve prioridades administrativas, planejamento e capacidade de gestão?

Uma análise baseada em dados públicos de arrecadação municipal, parâmetros de custos praticados no mercado regional e informações apresentadas no documento “Regionaliza Mais PR Fases e 1.0 GT e CIB 19.05.26.pdf” (anexo no final do texto) sugere que intervenções extraordinárias poderiam acelerar significativamente a redução da demanda reprimida, desde que acompanhadas de planejamento técnico, capacidade operacional e fiscalização rigorosa.

Embora não seja possível afirmar que a fila seria totalmente eliminada em prazo determinado, especialistas em gestão pública reconhecem que programas emergenciais de contratualização costumam produzir resultados relevantes quando há recursos disponíveis e articulação entre municípios, consórcios e prestadores de serviços.

O desafio dos 30 mil registros – Os números divulgados em sistemas públicos de regulação apontam para um passivo expressivo de pacientes aguardando consultas especializadas, exames diagnósticos e procedimentos eletivos.Entretanto, a própria experiência de diversos municípios brasileiros demonstra que filas de regulação são dinâmicas. Enquanto pacientes são atendidos, novos encaminhamentos entram diariamente no sistema.

Além disso, bases de dados podem conter situações que exigem revisão periódica, como:

Atendimentos que já foram realizados por outras vias;

Pacientes que mudaram de município ou atualizaram seus contatos;

Registros duplicados no sistema de regulação;

Solicitações que perderam a necessidade clínica ao longo do tempo.

Por essa razão, qualquer estratégia de enfrentamento da fila deve combinar a ampliação da oferta de serviços com uma auditoria permanente dos cadastros.

Uma simulação de enfrentamento em dez meses – Considerando um programa extraordinário de atendimento durante dez meses, seria possível projetar um volume aproximado de:

3 mil atendimentos mensais;

100 atendimentos por dia útil;

Integração direta entre clínicas, laboratórios, hospitais e profissionais credenciados;

Utilização de instrumentos de contratualização já previstos na legislação vigente.

Trata-se de uma simulação baseada em capacidade operacional potencial, e não de uma garantia de resultado. O sucesso dependeria da disponibilidade efetiva de profissionais, da adesão dos prestadores, da logística regional e do fluxo contínuo de novos pacientes no sistema.

Quanto custaria um programa dessa dimensão? – Utilizando valores superiores aos tradicionalmente praticados pela tabela federal do SUS e mais próximos da realidade de mercado regional, uma projeção hipotética poderia considerar:

Consultas e exames especializados remunerados em média a R$ 100 por atendimento;

Procedimentos cirúrgicos eletivos remunerados em média a R$ 1.500 por cirurgia.

Nessa hipótese, um investimento extraordinário da ordem de R$ 5 milhões poderia financiar milhares de consultas, exames e cirurgias adicionais ao longo do período. É importante destacar que se trata de uma estimativa simplificada, construída para demonstrar a ordem de grandeza financeira, e não de um orçamento executivo detalhado.

O impacto sobre as contas municipais – Tomando como referência uma arrecadação municipal superior a R$ 526 milhões em 2025, um investimento de R$ 5 milhões corresponderia a aproximadamente 0,95% da receita anual.

Sob essa perspectiva, o valor necessário para ampliar significativamente a oferta de atendimentos especializados representa uma parcela relativamente pequena do orçamento global do município.

A análise, porém, não significa que todo recurso arrecadado esteja livre para utilização imediata, uma vez que os orçamentos públicos possuem vinculações constitucionais, despesas obrigatórias e compromissos previamente assumidos. Ainda assim, os números demonstram que a discussão sobre o enfrentamento das filas não pode ser reduzida exclusivamente à disponibilidade de recursos financeiros.

O papel dos consórcios de saúde – O CISCENOP (Consórcio Público Intermunicipal do Centro Noroeste do Paraná) possui instrumentos jurídicos que permitem ampliar a contratação de serviços especializados, funcionando como uma importante ferramenta de gestão regional.

Nesse contexto, o fortalecimento das estruturas consorciadas representa uma alternativa relevante para acelerar atendimentos e distribuir demandas entre diferentes prestadores privados e filantrópicos da região.

O que diz o Regionaliza Mais Paraná (anexo) – O documento apresentado pela Secretaria de Estado da Saúde do Paraná mostra que a Fase 1.0 do programa Regionaliza Mais Paraná tem como foco o apoio à gestão consorciada e à manutenção de serviços especializados, especialmente dos Ambulatórios Médicos de Especialidades (AMEs).

O programa estabelece mecanismos de custeio para o fortalecimento dessas estruturas regionais, mas sua aplicação inicial é voltada a despesas de manutenção administrativa, não se apresentando como solução imediata para eliminar filas assistenciais já existentes. Por isso, mesmo reconhecendo a importância dos investimentos estaduais, a redução acelerada da demanda reprimida continua dependendo de iniciativas locais e regionais complementares.

Entre a infraestrutura e a urgência do paciente — A ampliação física dos serviços de saúde é importante para garantir a sustentabilidade de longo prazo. Entretanto, pacientes que aguardam consultas, exames ou cirurgias convivem diariamente com dor, limitações e insegurança.

Como costuma afirmar o professor Stallone Ribeiro: “Obras são importantes para o futuro. Mas quem está na fila da saúde precisa de solução para o presente.” Em outra reflexão sobre gestão pública, Stallone Ribeiro resume o desafio: “O debate não deveria ser se é possível fazer mais. O debate deveria ser quanto mais estamos dispostos a fazer para reduzir o sofrimento de quem espera?

Conclusão – Os dados disponíveis não permitem afirmar com absoluta certeza que um investimento extraordinário de R$ 5 milhões eliminaria completamente a fila existente. Permitem, contudo, sustentar uma conclusão relevante: existe uma diferença considerável entre o tamanho do problema e o volume de recursos que potencialmente poderia ser mobilizado para enfrentá-lo.

A discussão, portanto, não é apenas financeira. É também uma discussão sobre prioridades, eficiência administrativa, planejamento regional e capacidade de transformar orçamento em atendimento efetivo para a população. E essa é uma pergunta que merece ser feita por toda a sociedade:

Quanto mais estamos dispostos a fazer para reduzir o sofrimento de quem espera?

Stallone Ribeiro

@contexto.inf @profsta

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