{"id":2319,"date":"2026-10-08T12:56:37","date_gmt":"2026-10-08T15:56:37","guid":{"rendered":"https:\/\/contexto.inf.br\/?p=2319"},"modified":"2026-10-08T18:16:41","modified_gmt":"2026-10-08T21:16:41","slug":"a-primavera-neocolonial-dos-jes-tupi-e-a-ascencao-de-um-neofascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contexto.inf.br\/?p=2319","title":{"rendered":"A Primavera Neocolonial dos J\u00eas-Tupi \u00e9 a Ascen\u00e7\u00e3o de um NeoFascismo?"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-cover alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1086\" height=\"1448\" class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-2320\" alt=\"\" src=\"https:\/\/contexto.inf.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/444499.png\" data-object-fit=\"cover\"\/><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim\"><\/span><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-text-align-center has-large-font-size wp-block-paragraph\"><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Artigo de opini\u00e3o e Ensaio Sociol\u00f3gico<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imagem de I.A. met\u00e1fora do clima quente que incendeia debates e as disputas eleitorais. Imagem 100% figurativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Primavera Neocolonial dos J\u00eas-Tupis \u00e9 um Neo-Fascismo? &#8230; Uma hip\u00f3tese sobre cidadania sacrificial, disson\u00e2ncia cognitiva e eros\u00e3o democr\u00e1tica no Brasil (2012\u20132026)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 momentos na hist\u00f3ria em que uma sociedade parece acordar antes mesmo de compreender o que exatamente a despertou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, esse despertar coletivo tem uma certid\u00e3o de nascimento simb\u00f3lica: os protestos de Junho de 2013. O que come\u00e7ou com um aumento de vinte centavos na passagem de \u00f4nibus em S\u00e3o Paulo rapidamente transbordou para uma indigna\u00e7\u00e3o difusa. Em poucos dias, milh\u00f5es de pessoas tomaram as avenidas exigindo sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, o fim da corrup\u00e7\u00e3o e uma resposta para a crise de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Naquele momento, a rua parecia o \u00e1pice da promessa democr\u00e1tica, <strong>o cidad\u00e3o comum retomando fisicamente o seu lugar no debate p\u00fablico.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a hist\u00f3ria dos \u00faltimos quinze anos nos obriga a formular uma hip\u00f3tese bem mais perturbadora: <strong>a mesma energia social que promete expandir a democracia pode ser capturada por projetos desenhados para sufoc\u00e1-la.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 para interpretar essa virada que proponho uma met\u00e1fora te\u00f3rica: a Primavera Neocolonial dos J\u00eas-Tupis. N\u00e3o se trata de um r\u00f3tulo acad\u00eamico formal, mas de uma lente para enxergar o ciclo pol\u00edtico que nos trouxera at\u00e9 aqui. A palavra Primavera evoca o florescimento e a ruptura, assim como na Primavera \u00c1rabe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 a express\u00e3o J\u00eas-Tupis recupera a nossa brasilidade profunda, a mem\u00f3ria de que o povo brasileiro cordial com profundas ra\u00edzes no escravagismo e violenta explora\u00e7\u00e3o do trabalho que existia muito antes das nossas institui\u00e7\u00f5es republicanas, dos partidos ou das constitui\u00e7\u00f5es inspiradas na Europa e nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E onde entra o termo Neocolonial? Entre exatamente no paradoxo do nosso tempo. Vivemos uma revolta que se vende como hipernacionalista, mas que busca suas narrativas, seus inimigos te\u00f3ricos e seus m\u00e9todos pol\u00edticos do exterior, importando pautas de guerras culturais americanas, p\u00e2nico moral e teorias da conspira\u00e7\u00e3o importadas. \u00c9 a contradi\u00e7\u00e3o de quem brada pela soberania nacional nas redes sociais enquanto entrega a pr\u00f3pria autonomia intelectual a f\u00f3rmulas autorit\u00e1rias estrangeiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa din\u00e2mica desencadeou no pa\u00eds o que Wendy Brown chama de <strong>Cidadania Sacrificial<\/strong>. A cidadania sacrificial surge quando o indiv\u00edduo deixa de querer apenas que seu lado ven\u00e7a a elei\u00e7\u00e3o dentro das regras do jogo. Ele passa a aceitar o sacrif\u00edcio de suas pr\u00f3prias garantias constitucionais, desde que isso garanta a destrui\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio. A l\u00f3gica deixa de ser o debate pol\u00edtico e vira: <strong>&#8220;Eu aceito abrir m\u00e3o dos meus direitos, da minha liberdade de express\u00e3o e at\u00e9 do imp\u00e9rio da lei, contanto que o meu inimigo n\u00e3o governe.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para sustentar esse tipo de postura, entra em cena a <strong>Disson\u00e2ncia Cognitiva. Quando a pol\u00edtica se transforma em uma religi\u00e3o de identidade, o fato concreto perde para a f\u00e9<\/strong>. Se o l\u00edder do grupo \u00e9 investigado, a den\u00fancia \u00e9 lida como conspira\u00e7\u00e3o do &#8220;sistema&#8221;. Se uma elei\u00e7\u00e3o \u00e9 perdida, o resultado \u00e9 imediatamente interpretado como fraude. Se manifestantes praticam atos de viol\u00eancia, isso \u00e9 justific\u00e1vel como uma &#8220;rea\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria&#8221;. A realidade deixa de moldar a opini\u00e3o; \u00e9 <strong>a opini\u00e3o que precisa distorcer a realidade para proteger o sentimento de pertencimento do indiv\u00edduo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E nada alimenta mais essa disson\u00e2ncia do que a cria\u00e7\u00e3o do <strong>Inimigo Absoluto<\/strong>. O opositor pol\u00edtico deixa de ser algu\u00e9m com quem se diverge sobre economia ou sa\u00fade p\u00fablica. Ele passa a ser retratado como uma amea\u00e7a existencial \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 f\u00e9, \u00e0 liberdade e \u00e0 p\u00e1tria. E <strong>quando o outro \u00e9 desumanizado, qualquer tentativa de di\u00e1logo vira trai\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim que a rua mudou de fun\u00e7\u00e3o no Brasil. De 2013 em diante, o espa\u00e7o p\u00fablico deixou de ser um local de reinvindica\u00e7\u00e3o epis\u00f3dica e virou um territ\u00f3rio de resist\u00eancia paralela. Vimos a ocupa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de avenidas nas pautas de impeachment de 2016, a presen\u00e7a ostensiva de pautas autorit\u00e1rias durante a pandemia em 2020 e, finalmente, os acampamentos instalados na porta dos quart\u00e9is em 2022. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mensagem ali j\u00e1 n\u00e3o era &#8220;queremos ser ouvidos&#8221;, mas sim <strong>&#8220;n\u00e3o aceitamos a regra do jogo democr\u00e1tico quando ela nos \u00e9 desfavor\u00e1vel&#8221;<\/strong>. A consequ\u00eancia inevit\u00e1vel desse processo \u00e9 a Normaliza\u00e7\u00e3o da Exce\u00e7\u00e3o. Pedidos de interven\u00e7\u00e3o militar, fechamento do Supremo Tribunal Federal e cassa\u00e7\u00e3o de opositores deixaram de ser frases absurdas restritas \u00e0s franjas extremistas e passaram a circular no cotidiano de fam\u00edlias e redes sociais&#8230; Viol\u00eancia fatal contra &#8220;os outros&#8221; at\u00e9 inc\u00eandios em locais &#8220;dos outros&#8221;&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 nessa virada que a pergunta do nosso t\u00edtulo se coloca: <strong>isso \u00e9 um Neo-Fascismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conceito de neo-fascismo n\u00e3o significa que o Brasil contempor\u00e2neo seja uma c\u00f3pia id\u00eantica da It\u00e1lia ou Alemanha dos anos 1930. Trata-se de uma ferramenta anal\u00edtica para identificar uma constela\u00e7\u00e3o de <strong>mecanismos que se repete: o culto messi\u00e2nico ao l\u00edder, a militariza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da sociedade, a nega\u00e7\u00e3o do pluralismo, o desprezo pelas institui\u00e7\u00f5es e a transforma\u00e7\u00e3o da disputa eleitoral em uma guerra santa de sobreviv\u00eancia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se essa constru\u00e7\u00e3o parecia abstrata, o <strong>8 de Janeiro de 2023 <\/strong>deu a ela um contorno tr\u00e1gico e f\u00edsico. A invas\u00e3o e depreda\u00e7\u00e3o das sedes dos Tr\u00eas Poderes em Bras\u00edlia n\u00e3o foram um acidente isolado, mas o \u00e1pice de um longo arco de radicaliza\u00e7\u00e3o. <strong>A multid\u00e3o n\u00e3o estava apenas protestando contra o poder; estava tentando tomar fisicamente o seu controle para anular o resultado soberano das urnas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a linguagem pol\u00edtica se converte no bord\u00e3o de que<strong> &#8220;se a pol\u00edtica n\u00e3o resolver, teremos que ir para a guerra&#8221;<\/strong>, a viol\u00eancia deixa de ser impens\u00e1vel. Ela passa a ser imaginada, depois tolerada e, finalmente, legitimada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olhando para o arco hist\u00f3rico de 2012 a 2026, compreendemos a trajet\u00f3ria: <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2013, o despertar da insatisfa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre 2014 e 2018, a polariza\u00e7\u00e3o alimentada por crises econ\u00f4micas, pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e pela ascens\u00e3o do ressentimento antipol\u00edtica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De 2019 a 2022, a convers\u00e3o da pol\u00edtica em identidade tribal, o flerte constante com a exce\u00e7\u00e3o institucional e a contesta\u00e7\u00e3o da integridade eleitoral. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2023, a tentativa de ruptura concreta. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E entre 2024 e 2026, a batalha discursiva pela anistia, pela mem\u00f3ria dos fatos e pelos limites da liberdade na democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A grande quest\u00e3o que o Brasil enfrenta hoje n\u00e3o \u00e9 descobrir qual grupo pol\u00edtico sair\u00e1 vitorioso na pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o. A <strong>verdadeira pergunta \u00e9: o que n\u00f3s, como sociedade, estamos dispostos a sacrificar para que o nosso lado ven\u00e7a?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma democracia \u00e9 plenamente capaz de sobreviver a uma recess\u00e3o econ\u00f4mica, a esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o e a altern\u00e2ncias dif\u00edceis de governo. <strong>O que democracia nenhuma no mundo consegue suportar indefinidamente \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio em um inimigo a ser exterminado, e da derrota eleitoral em uma senha para a viol\u00eancia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando aceitamos esse pacto, a nossa Primavera deixa de ser um momento de renova\u00e7\u00e3o e se transforma em um inverno autorit\u00e1rio e ca\u00f3tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>@contexto.inf   @profsta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p> <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/contexto.inf.br\/?p=2319\" title=\"A Primavera Neocolonial dos J\u00eas-Tupi \u00e9 a Ascen\u00e7\u00e3o de um NeoFascismo?\"><\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":2,"featured_media":2320,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,37,18,34,5,31,32],"tags":[],"class_list":["post-2319","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-brasil","category-ciencia","category-demografia","category-diversidade","category-politica","category-_destaque","category-_em-foco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/contexto.inf.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2319","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/contexto.inf.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/contexto.inf.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/contexto.inf.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/contexto.inf.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2319"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/contexto.inf.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2319\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2335,"href":"https:\/\/contexto.inf.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2319\/revisions\/2335"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/contexto.inf.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2320"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/contexto.inf.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/contexto.inf.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/contexto.inf.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}