A Primavera Neocolonial dos Jês-Tupi é a Ascenção de um NeoFascismo?

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Artigo de opinião e Ensaio Sociológico

Imagem de I.A. metáfora do clima quente que incendeia debates e as disputas eleitorais. Imagem 100% figurativa.

A Primavera Neocolonial dos Jês-Tupis é um Neo-Fascismo? … Uma hipótese sobre cidadania sacrificial, dissonância cognitiva e erosão democrática no Brasil (2012–2026)

Há momentos na história em que uma sociedade parece acordar antes mesmo de compreender o que exatamente a despertou.

No Brasil, esse despertar coletivo tem uma certidão de nascimento simbólica: os protestos de Junho de 2013. O que começou com um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus em São Paulo rapidamente transbordou para uma indignação difusa. Em poucos dias, milhões de pessoas tomaram as avenidas exigindo saúde, educação, o fim da corrupção e uma resposta para a crise de representação política. Naquele momento, a rua parecia o ápice da promessa democrática, o cidadão comum retomando fisicamente o seu lugar no debate público.

Mas a história dos últimos quinze anos nos obriga a formular uma hipótese bem mais perturbadora: a mesma energia social que promete expandir a democracia pode ser capturada por projetos desenhados para sufocá-la.

É para interpretar essa virada que proponho uma metáfora teórica: a Primavera Neocolonial dos Jês-Tupis. Não se trata de um rótulo acadêmico formal, mas de uma lente para enxergar o ciclo político que nos trouxera até aqui. A palavra Primavera evoca o florescimento e a ruptura, assim como na Primavera Árabe.

Já a expressão Jês-Tupis recupera a nossa brasilidade profunda, a memória de que o povo brasileiro cordial com profundas raízes no escravagismo e violenta exploração do trabalho que existia muito antes das nossas instituições republicanas, dos partidos ou das constituições inspiradas na Europa e nos Estados Unidos.

E onde entra o termo Neocolonial? Entre exatamente no paradoxo do nosso tempo. Vivemos uma revolta que se vende como hipernacionalista, mas que busca suas narrativas, seus inimigos teóricos e seus métodos políticos do exterior, importando pautas de guerras culturais americanas, pânico moral e teorias da conspiração importadas. É a contradição de quem brada pela soberania nacional nas redes sociais enquanto entrega a própria autonomia intelectual a fórmulas autoritárias estrangeiras.

Essa dinâmica desencadeou no país o que Wendy Brown chama de Cidadania Sacrificial. A cidadania sacrificial surge quando o indivíduo deixa de querer apenas que seu lado vença a eleição dentro das regras do jogo. Ele passa a aceitar o sacrifício de suas próprias garantias constitucionais, desde que isso garanta a destruição do adversário. A lógica deixa de ser o debate político e vira: “Eu aceito abrir mão dos meus direitos, da minha liberdade de expressão e até do império da lei, contanto que o meu inimigo não governe.”

Para sustentar esse tipo de postura, entra em cena a Dissonância Cognitiva. Quando a política se transforma em uma religião de identidade, o fato concreto perde para a fé. Se o líder do grupo é investigado, a denúncia é lida como conspiração do “sistema”. Se uma eleição é perdida, o resultado é imediatamente interpretado como fraude. Se manifestantes praticam atos de violência, isso é justificável como uma “reação necessária”. A realidade deixa de moldar a opinião; é a opinião que precisa distorcer a realidade para proteger o sentimento de pertencimento do indivíduo.

E nada alimenta mais essa dissonância do que a criação do Inimigo Absoluto. O opositor político deixa de ser alguém com quem se diverge sobre economia ou saúde pública. Ele passa a ser retratado como uma ameaça existencial à família, à fé, à liberdade e à pátria. E quando o outro é desumanizado, qualquer tentativa de diálogo vira traição.

Foi assim que a rua mudou de função no Brasil. De 2013 em diante, o espaço público deixou de ser um local de reinvindicação episódica e virou um território de resistência paralela. Vimos a ocupação contínua de avenidas nas pautas de impeachment de 2016, a presença ostensiva de pautas autoritárias durante a pandemia em 2020 e, finalmente, os acampamentos instalados na porta dos quartéis em 2022.

A mensagem ali já não era “queremos ser ouvidos”, mas sim “não aceitamos a regra do jogo democrático quando ela nos é desfavorável”. A consequência inevitável desse processo é a Normalização da Exceção. Pedidos de intervenção militar, fechamento do Supremo Tribunal Federal e cassação de opositores deixaram de ser frases absurdas restritas às franjas extremistas e passaram a circular no cotidiano de famílias e redes sociais… Violência fatal contra “os outros” até incêndios em locais “dos outros”…

E é nessa virada que a pergunta do nosso título se coloca: isso é um Neo-Fascismo?

O conceito de neo-fascismo não significa que o Brasil contemporâneo seja uma cópia idêntica da Itália ou Alemanha dos anos 1930. Trata-se de uma ferramenta analítica para identificar uma constelação de mecanismos que se repete: o culto messiânico ao líder, a militarização simbólica da sociedade, a negação do pluralismo, o desprezo pelas instituições e a transformação da disputa eleitoral em uma guerra santa de sobrevivência.

Se essa construção parecia abstrata, o 8 de Janeiro de 2023 deu a ela um contorno trágico e físico. A invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília não foram um acidente isolado, mas o ápice de um longo arco de radicalização. A multidão não estava apenas protestando contra o poder; estava tentando tomar fisicamente o seu controle para anular o resultado soberano das urnas.

Quando a linguagem política se converte no bordão de que “se a política não resolver, teremos que ir para a guerra”, a violência deixa de ser impensável. Ela passa a ser imaginada, depois tolerada e, finalmente, legitimada.

Olhando para o arco histórico de 2012 a 2026, compreendemos a trajetória:

Em 2013, o despertar da insatisfação.

Entre 2014 e 2018, a polarização alimentada por crises econômicas, pela Operação Lava Jato e pela ascensão do ressentimento antipolítica.

De 2019 a 2022, a conversão da política em identidade tribal, o flerte constante com a exceção institucional e a contestação da integridade eleitoral.

Em 2023, a tentativa de ruptura concreta.

E entre 2024 e 2026, a batalha discursiva pela anistia, pela memória dos fatos e pelos limites da liberdade na democracia.

A grande questão que o Brasil enfrenta hoje não é descobrir qual grupo político sairá vitorioso na próxima eleição. A verdadeira pergunta é: o que nós, como sociedade, estamos dispostos a sacrificar para que o nosso lado vença?

Uma democracia é plenamente capaz de sobreviver a uma recessão econômica, a escândalos de corrupção e a alternâncias difíceis de governo. O que democracia nenhuma no mundo consegue suportar indefinidamente é a transformação do adversário em um inimigo a ser exterminado, e da derrota eleitoral em uma senha para a violência.

Quando aceitamos esse pacto, a nossa Primavera deixa de ser um momento de renovação e se transforma em um inverno autoritário e caótico.

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