VLT Curitiba ao Aeroporto é Progresso, mas Pode Estar sob Boicote por Oposição Política

Compartilhe

VLT Curitiba ao Aeroporto é Progresso, mas Pode Estar sob Boicote por Oposição Política

O anúncio de R$2,2 bilhões em recursos federais para o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) entre Curitiba e o Aeroporto Internacional de São José dos Pinhais acendeu a esperança de um transporte moderno e sustentável para a região. No entanto, a celebração foi quase instantaneamente ofuscada pela forte oposição da prefeitura de Curitiba e do governo do Paraná.

A justificativa das gestões de Eduardo Pimentel e Ratinho Jr. é a segurança, citando os riscos dos cruzamentos ferroviários em nível e defendendo a remoção pura e simples dos trilhos do perímetro urbano. Uma análise do histórico de acidentes e das soluções de engenharia adotadas globalmente, porém, revela que o impasse curitibano parece ser mais político do que técnico. É incontestável que os cruzamentos de nível da malha ferroviária tradicional representam um perigo crônico.

Dados da imprensa local ao longo dos últimos anos mostram um histórico de acidentes trágicos e constantes. Entre 2016 e 2020, um estudo do Confea registrou 56 acidentes graves na malha urbana. O ano de 2023 teve um pico alarmante, com 44 ocorrências reportadas. No entanto, os registros de 2024, que apontam para 29 ocorrências, seguem uma linha de volatilidade típica do problema, mas não configuram uma curva de crescimento explosivo e inédito que justifique a medida radical de erradicação dos trilhos apenas após o anúncio do VLT federal.

A grande questão que a oposição ignora é: a solução para o problema de segurança não pode ser a engenharia? Grandes cidades globais já resolveram esse conflito há décadas, e um exemplo brasileiro bem-sucedido está a apenas 300 km de distância. Em Maringá,a prefeitura optou por construir um túnel para enterrar os trilhos da Rumo que cortavam a zona urbana.

A obra, concluída em 2017, eliminou os perigosos cruzamentos em nível, reunificou a cidade e abriu espaço para um parque linear acima do túnel. Embora o custo exato não seja facilmente detalhado em uma única fonte, projetos similares em grandes centros urbanos no Brasil, como o proposto para a cidade de Cuiabá, preveem investimentos na casa dos R$ 217 milhões por quilômetro para soluções que incluem trechos subterrâneos. É a prova de que a solução para a ferrovia de carga existente é viável no Brasil.

Internacionalmente, projetos como os túneis de base de São Gotardo, na Suíça, mostram um investimento massivo para enterrar trilhos de carga e melhorar a eficiência e a segurança.

Da mesma forma, o projeto do novo VLT não precisa replicar os problemas do passado. Diferente dos trens de carga, um VLT moderno pode ser planejado desde a concepção para ser elevado ou subterrâneo nos trechos críticos, eliminando por completo o conflito com o tráfego.

Sistemas como a Docklands Light Railway (DLR), em Londres, e o SkyTrain, em Vancouver, são majoritariamente elevados e funcionam como motores de desenvolvimento urbano, sem criar cruzamentos perigosos. Em Rennes, na França, uma cidade de porte médio como Curitiba, o VLT é subterrâneo no centro histórico e em superfície ou elevado nas áreas menos densas.

É justamente a existência dessas soluções técnicas robustas que coloca em xeque o discurso oficial. Se o problema é a segurança, por que não se debate a modernização dos corredores? Por que a única saída apresentada é a extinção dos trilhos, que inviabilizaria por tabela o projeto federal? A resposta parece residir na arena política.

A oposição declarada entre PSD e PT transforma o projeto em um cabo de guerra. Aceitar o VLT federal significa dividir a autoria de uma obra transformadora. Não por acaso, o governador Ratinho Jr. já divulgou seu próprio projeto sobre trilhos, o “Bonde Digital Urbano” (BUD), para o qual o governo estadual já alocou R$ 6 milhões em investimentos iniciais para testes.

A contradição é flagrante: como pode um governo que alega que os trilhos são intrinsecamente perigosos e devem ser removidos simultaneamente idealizar um veículo que… circula sobre trilhos? O impasse, portanto, transcende a técnica.

Enquanto a população clama por soluções de mobilidade seguras e modernas, que podem perfeitamente ser alcançadas com túneis, vias elevadas e planejamento, a disputa entre as esferas de poder aponta que o futuro do VLT pode estar menos nas planilhas de engenharia e mais no tabuleiro da política, onde o progresso parece ser, por vezes, um peão a ser sacrificado.

@contexto.inf @profsta

Entre em Nosso grupo WhatsApp e receba as Notícias em Primeira Mão: Clique Aqui